Cigarro eletrônico mata

Se antes era uma suspeita, agora é realidade. Sucessivos casos confirmados de mortes decorrentes do uso de vaporizadores de óleo ligam o alerta para quem tem o hábito de fumar com este tipo de aparelho — muito popular entre os jovens

O cigarro eletrônico já não é mais novidade. Apresentado como uma alternativa menos cancerígena ao consumo de nicotina, principalmente por não funcionar com a combustão de substâncias nocivas como o alcatrão, eles são de aspecto moderno, tem grande apelo juvenil, não deixam cheiro ruim e oferecem essências com sabores diversificados. Mas, como agora se sabe, eles também podem ser letais.O centro de controle de doenças dos EUA, onde os vapes — como também são conhecidos — são muito populares, já confirmou 530 casos de doenças respiratórias graves associadas ao hábito, além de onze mortes. Esta doença ainda não tem nome e sequer há um mapeamento completo de como ela se instala no corpo e provoca os sintomas. Num primeiro momento, existia a hipótese de que a misteriosa enfermidade estivesse ligada ao consumo de vapes com THC, principal substância psicoativa encontrada na maconha, e que fosse mais perigosa para jovens. A suspeita se deu por causa de um estudo da Universidade de Saúde de Utah, que identificou a doença em um homem de 21 anos que usava cigarros eletrônicos para fumar óleos de nicotina e de THC. Foi a primeira empreitada que conseguiu identificar parte do problema, encontrando células com grande quantidade de gordura dentro do pulmão do paciente. Até o momento, dois terços dos acometidos pela doença pulmonar estão na faixa dos 18 aos 34 anos

Com a confirmação de mais mortes, incluindo a de um homem de mais de 40 anos, a suspeita se dissipou, expandindo o alerta para todos que usam vapes, com todo tipo de essência ou sabor. Sean Callahan, professor assistente da Universidade de Saúde de Utah e um dos que assinou o estudo, diz a ISTOÉ que os resultados de pesquisas sobre o uso de cigarros eletrônicos é bem claro: “simplesmente é melhor não usar vapes por enquanto.” Ele afirma, do ponto de vista de sua experiência no setor de cuidados pulmonares na universidade, que há um percentual grande de usuários de óleos que não contém THC sendo identificados com a doença. O médico também avalia que o grande número de jovens afetados está relacionado com o fato dos e-cigars serem muito populares entre os mais novos. ”Nós médicos precisamos melhorar nossa capacidade de diagnóstico do problema, além dos que estão fora da divisão pulmonar, principalmente nas áreas de primeiros cuidados e de emergência”, diz.

Jovens e vapes

A preocupação com a letalidade do cigarro eletrônico está principalmente no crescimento do uso entre a população mais jovem. Enquanto o departamento de Saúde dos EUA aponta que apenas 5,8% dos colegiais do país fumam cigarros (número decrescente), a agência de alimentos e drogas mostra que em 2019, 27,5% dos estudantes dessa faixa etária experimentaram um vape ao menos uma vez no mês anterior à pesquisa. Os dispositivos são portáteis, existindo até capas para smartphones com alça para transportá-los juntos. É algo atraente e descolado. Há marcas desenvolvendo adesivos de estampas como “Supreme” ou “Marvel” para customizar o próprio cigarro eletrônico.

Muito da popularização do dispositivo tem a ver com a empresa por trás disso: a Juul, uma startup fundada por dois ex-alunos de Stanford, Jame Monsees e Adam Bowen, que controla mais da metade do mercado norte-americano de vapes. Embora ela tenha assumido uma postura de apresentar o produto como “uma alternativa para fumantes”, a marca é a preferida entre os adolescentes, principalmente para consumir os óleos de sabor, como mentolados e de manga. A empresa chegou a ter programa de representantes que visitavam escolas para informar os benefícios de trocar do cigarro convencional para o eletrônico, colocando os jovens em contato direto com o produto da marca – iniciativa já interrompida pela Juul. Ela já chegou a ser avaliada em US$ 38 bilhões e faturou aproximadamente US$ 1.2 bilhões no primeiro semestre de 2019. No último balanço divulgado pela empresa, em 2017, foram vendidos mais de 16 milhões de dispositivos.

A Juul deve acusar o golpe após a multiplicação dos casos de doenças ligadas ao cigarro eletrônico. O presidente dos EUA, Donald Trump, já se posicionou afirmando que “não podemos permitir que nossos jovens adoeçam”, indicando que alguma regulação ao acesso de tais produtos deve acontecer. Os estados de Nova York e de Michigan proibiram a comercialização de cigarros eletrônicos de sabor (que representam cerca de 80% do total consumido) e a rede de lojas de departamento Walmart, uma das maiores do mundo, afirmou que irá deixar de vendê-los. O caminho é bastante claro: o império da nicotina eletrônica construído pela Juul pode ruir, principalmente com a população adoecendo pelo consumo da substância. No Brasil, apesar dos cigarros eletrônicos serem proibidos por lei desde 2009, não é difícil encontrar alguém vaporizando nicotina pelas ruas. Um dispositivo desses pode ser comprado por meio de sites especializados, bem como os diferentes tipos essências, ou até mesmo em perfis do Instagram. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária informa que desde 2017 já retirou da internet mais de 700 anúncios de dispositivos eletrônicos para fumar e que já realizou duas audiências públicas para debater o tema.

A situação no Brasil

O Brasil é referência mundial no combate ao tabagismo. Na segunda 23, o País recebeu o prêmio da Força-Tarefa Interagências da ONU pela redução do percentual de fumantes de 15,6% em 2006 para 9% em 2018. Mesmo assim, mediante aos expressivos números do mercado, há a ameaça da legalização, apesar dela ainda não ser formalmente discutida, principalmente pelos incipientes dados no ambiente brasileiro. Uma pesquisa do Programa Nacional de Tabagismo do SUS revelou que 30% dos fumantes menores de 30 anos já experimentou o vape alguma vez, indicando a propensão também da sociedade brasileira em aderir ao hábito. Os jovens cresceram num Brasil em que fumar cigarro é mal visto. Há imagens repulsivas nos maços de cigarro e não se pode fumar em locais fechados. Os cigarros eletrônicos ainda não estão associados a tais imagens ruins, pelo contrário, são quase vistos como desejáveis. Se foram necessárias décadas para arruinar a imagem do cigarro, as mortes decorrentes do uso de vape podem fazer isso em muito menos tempo.

Fonte: ISTOÉ